sexta-feira, 4 de abril de 2025
quinta-feira, 3 de abril de 2025
O QUE SOBRA DESTA VIDA
Pinturas rupestres têm sido descobertas em cavernas do mundo todo: Américas, Europa, Sibéria, Extremo Oriente, Austrália. Embora alguns espécimes possam ser considerados obras de arte, sua importância transcende considerações meramente artísticas. Bem mais que isso, estão entre os parcos testemunhos dos primórdios de nossa espécie.
Num formidável salto no tempo, vamos passar agora da pré-história à história tal como a entendemos. Com a sociedade já organizada em vilarejos e burgos, com Estados governados pelo mais forte fisicamente, pelo mais inteligente ou pelo herdeiro de linhagem aceita como legítima, não se dissipou a aspiração ancestral do ser humano por deixar algum traço de sua passagem.
As tentativas individuais dos que viveram em tempos antigos e trataram de deixar uma marca perene nem sempre foram coroadas de sucesso. Guerras, invasões, terremotos, desmoronamentos, incêndios, inundações, erupções vulcânicas, vandalismo e abandono deram conta de esboroar orgulhosas construções, que acabaram virando pó. Palácios, estátuas, faróis, casas e mausoléus perderam-se no tempo.
O que, de verdade, sobra desta vida não são objetos materiais, por mais que sejam significativos. O prolongamento de cada indivíduo se faz através do que sua obra tem de imaterial. Temos, na história do Brasil, um caso curioso e que vem a propósito.
Dom Pedro II, nosso segundo e último imperador, esteve no trono por 58 anos, até que um golpe de Estado o depôs e o despachou para a Europa. Sua filha, a princesa Isabel, não chegou a ser coroada, logo nunca pôde ostentar o título de imperatriz. No entanto, numa ausência do imperador, coube-lhe assinar a Lei Áurea, a que libertou os últimos escravos. Por esse único gesto, é mais festejada que o próprio pai. Entre os vultos do império, a princesa é, no imaginário popular, a magnânima, figura simpática apesar de nunca ter tido cetro, nem manto, nem coroa.
Mas o mundo é vasto. É raro que personagens fiquem na lembrança por uma simples assinatura, como nossa princesa. É mais frequente que a inscrição na História seja fruto de uma sequência de medidas, fortes e impactantes, impostas com energia, que atinjam as estruturas da sociedade mundial. Os personagens que maior probabilidade têm de inscrever seu nome pelos séculos vindouros são os grandes líderes cujo legado tenha alcançado a façanha de perturbar a marcha da História – para melhor ou para pior.
Dito assim, pode parecer simples. Não é. O século 20 deixou uns poucos exemplos significativos. Adolf Hitler foi, sem dúvida, o personagem que mais fortemente sacudiu as bases da sociedade. Seus atos provocaram a inteira reestruturação política do mundo. Nenhum outro dirigente conseguiu, sozinho, causar tamanha revolução. O próprio Stalin não foi iniciador, mas continuador, da difusão do sistema comunista.
O século atual, a menos que um imprevisto lhe trunque a ascensão, já conhece o personagem que fará tremer as bases da sociedade: é Donald Trump. Talvez por dar-se conta de que o tempo lhe é contado, o presidente americano tem utilizado o poder que a força bélica e a capacidade econômica de seu país lhe conferem para atordoar um mundo até então embevecido com um já longevo statu quo.
Pela novíssima cartilha – que ainda ninguém decifrou –, inimigos de ontem são prestigiados e saem da berlinda, enquanto os amigos de sempre são hostilizados e tratados como inimigos. Os demais permanecem num temporário limbo, à espera de conhecer o destino que lhes será imposto pelo novíssimo “imperador do mundo”.
Neste momento, é impossível saber como estará a sociedade global ao fim do mandato de Mr. Trump. Ainda não se consegue predizer para que lado evoluirá o mundo. Conseguiremos retornar ao statu quo ante bellum – o estado em que estavam as coisas antes da guerra?
Sem medo de errar, podemos profetizar que não, que nada voltará a ser como antes. O mundo estará melhor? Pode ser, mas há controvérsia.
Artigo publicado no Correio Braziliense de 31 março 2025
LUGARES
quarta-feira, 2 de abril de 2025
CALÚNIA
LUGARES
terça-feira, 1 de abril de 2025
UM POUCO DE DOÇURA

São a Leila e a Cris que seguram o leitor nas mãos: fisgado e rendido, ele ficará preso até a última linha, quando então retornará à vida acreditando novamente na espécie humana
Que a vida anda truculenta não é novidade. Milhares de pessoas têm recorrido à meditação, yoga, ayurveda e tudo o que ajude a purificar a mente, o corpo e o espírito. Pois recomendo incluir um livro na receita. Prescrevo Leila Ferreira e Cris Guerra para detox.
Doçura, inteligência, graça, suavidade – lembra? Também imaginei que estivessem em extinção, mas descobri que seguem vivos nas páginas de Que Ninguém Nos Ouça, escrito a quatro mãos pelas duas escritoras mineiras acima mencionadas. Não que seja uma literatura para mocinhas inocentes: o assunto muitas vezes é barra. Nem Leila, nem Cris saltaram de um conto de fadas. Leila foi criada apenas pela mãe e passou por uma infância de provações.
Cris ficou viúva quando estava com sete meses de gravidez. Porém, mesmo quando confidenciam a parte trash de suas trajetórias (pequenas e grandes tragédias cotidianas que deixam cicatrizes), a delicadeza continua mantendo o tom. Amargas? Nem que quisessem. Nem que tentassem. É o único talento que elas não têm.
São confessionais sem seres histriônicas. Verdadeiras sem serem rudes. Honestas sem serem simplórias. Nesses tempos em que está tudo polarizado (ou é isso ou aquilo, cada extremo defendendo-se aos gritos), como não ficar comovido por quem é tão hábil em encontrar o equilíbrio saudável entre as diferenças?
Leila, 62 anos, é jornalista tarimbada, com 1.600 entrevistas no currículo, feitas no tempo em que trabalhava na tevê. Cris, 45, é uma blogueira antenada e está vivendo o auge da profissão. Duas mulheres e seus amores felizes e infelizes, suas dores inevitáveis e seus prazeres escolhidos, suas visões sobre o envelhecimento, sobre o papel da moda, sobre dietas estúpidas, sobre os efeitos colaterais da agressividade, sobre o poder das amizades, sobre suas vidas em princípio tão particulares, mas que encontram ressonância na minha e certamente encontrarão na sua também. Um livro feminino, mas digestível para qualquer sexo. É doce, mas não é enjoativo. Sugar free.
Sou muito amiga da Leila, e conheço a Cris também, ainda que pouco. Duas mulheres incomuns e com experiências singulares: só pelo voyeurismo consentido, já valeria dar uma espiada nessa troca de e-mails entre as duas. Porém, basta abrir a primeira página para perder a ilusão de que teremos algum controle sobre a leitura. São a Leila e a Cris que seguram o leitor nas mãos: fisgado e rendido, ele ficará preso até a última linha, quando então retornará à vida acreditando novamente na espécie humana.
Se não estou enganada, é do que mais precisamos no momento.
Fonte: Zero Hora
segunda-feira, 31 de março de 2025
PAUL NEWMAN AOS TRINTA
Paul Newman, um dos grandes de Hollywood, teria feito cem anos no dia 26 último. Paul Newman, cem anos! Não combina. Aos cem anos, o sujeito é levado a tomar sol sentado numa cadeira e com uma manta xadrez nas pernas. Eu sei, é só um clichê, e eu próprio tenho amigos que estão perto da marca e longe dessa descrição. Mas Paul Newman não foi feito para ter cem anos, e sim, sempre, trinta. Minha amiga Rita Kaufman, jornalista, me disse certa vez: "Se Paul Newman, aos trinta anos, tocasse o meu interfone pedindo para subir, eu já o receberia de baby doll."
Mas os trinta anos de Paul Newman sempre foram uma fantasia. Mesmo em seus primeiros e grandes papéis, como Billy the Kid em "Um de Nós Morrerá", o Brick de "Gata em Teto de Zinco Quente" (ambos 1958), o Eddie de "Desafio à Corrupção" (1961), o Chance de "Doce Pássaro da Juventude" (1962) ou o Hud de "O Indomado" (1963), já tinha deixado os trinta para trás. Aliás, quando fez seu primeiro filme para valer, "Marcados pela Sarjeta", em 1956, como o boxeur Rocky Graziano, já tinha 31.
Com alguns anos de diferença entre eles, Newman fez parte de uma geração única: Montgomery Clift, de 1920; Marlon Brando, de 1924; ele, de 1925; Steve McQueen, de 1930; e James Dean, de 1931. Todos estudaram teatro em Nova York com Lee Strasberg ou Stella Adler, todos fizeram o gênero "rebelde" em Hollywood e, na tela, todos usavam os mesmos truques: mãos nos bolsos de trás, queixo enterrado no peito, longos silêncios antes de falar e uma dicção abafada, como se falassem com as gengivas.
No cinema ou no teatro, Brando herdou papéis de Clift, Dean herdou papéis de Brando, Newman herdou papéis de Dean, e McQueen, que não herdou papéis de ninguém, devia sofrer horrores ao ver seus colegas consagrados enquanto ele ainda filmava besteiras, como "A Bolha Assassina", de 1958, e custava a estourar.
Newman foi, disparado, o mais longevo. Trabalhou até morrer, em 2008, com 83 anos. E, de alguma forma, era como se ainda tivesse trinta.
Fonte: Folha de S. Paulo - 1º.fev.2025
LUGARES
domingo, 30 de março de 2025
PEDINTE CADEIRANTE
sábado, 29 de março de 2025
ROMANCE FORENSE
LUGARES
sexta-feira, 28 de março de 2025
LUGARES
quinta-feira, 27 de março de 2025
GATOS PINGADOS
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quarta-feira, 26 de março de 2025
CRIME NA POCILGA
LUGARES
terça-feira, 25 de março de 2025
O SEXTO SENTIDO DA NOIVA
LUGARES
segunda-feira, 24 de março de 2025
DUMBICE, IMPIPOCÁVEL E NOMOFOBIA
domingo, 23 de março de 2025
OVOS FRITOS E ARROZ BRANCO
LUGARES
sábado, 22 de março de 2025
ROMANCE FORENSE
Os deveres dos nubentes
LUGARES
sexta-feira, 21 de março de 2025
quinta-feira, 20 de março de 2025
CONCLAVE - O QUE O FILME ENSINA SOBRE POLÍTICA
![]() |
Confira a comparação do filme Conclave com a política atual |
LUGARES
quarta-feira, 19 de março de 2025
CARMELITAS
LUGARES
(Place du Vieux-Marché) |
terça-feira, 18 de março de 2025
DO VIRTUAL AO REAL

Tem uma coisa que a relação virtual não alcança, apenas o convívio permite conhecer. E é justamente o fator mais importante
Recentemente me perguntaram se eu acredito nos relacionamentos que iniciam por e-mail ou Facebook, sem conhecimento prévio um do outro. Sinceramente? É bom que todos acreditem, pois não são poucos os casais que travam o primeiro contato através da internet. Anda cada vez mais difícil um adulto conhecer um parceiro amoroso no bar, no parque ou numa festa, então os sites dão conta de providenciar os arranjos com mais presteza e ótimos resultados.
Se pra você o mais importante numa relação é ter afinidades, será fácil descobrir se elas existem. É esportista, intelectual, gosta de viajar, acorda cedo, vive na balada, qual o partido político, que séries prefere? Durante a troca de mensagens, você terá as informações preliminares que precisa.
E de quebra verá se seu interlocutor escreve bem. E se pensa bem. A inteligência (ou a falta dela) não demorará a aflorar. Aparência física? Peça fotos, caso não haja suficientes no perfil do Face. É claro que seu pretendente mandará as melhores que tiver, mas, por mais cirurgicamente selecionadas, você terá ao menos uma ideia se está teclando com o Quasímodo ou com um primo distante do George Clooney.
A pessoa está parecendo perfeita demais? Bem-humorada, positiva, culta, um doce? Deve estar supervalorizando os próprios dotes, evidente, mas deixará escapar alguns detalhes imperfeitos. Você poderá intuir onde está se metendo.
Logo, acho bastante possível você não só iniciar uma relação virtual, como se empolgar verdadeiramente sem nunca ter colocado os olhos na criatura. Até o dia que coloca. E descobre que ela é realmente inteligente, bonita e tem tudo a ver com você. Mas... Pois é. Prepare-se para o “mas”.
Tem uma coisa que a relação virtual não alcança, apenas o convívio permite conhecer. E é justamente o fator mais importante, aquele que fará os sinos tocarem. Estou me referindo ao jeito da pessoa.
O jeito. O jeito que ela caminha. O jeito que sorri. O jeito que fala. O jeito que olha.
E sendo mais específica: o jeito que mexe no cabelo, o jeito que segura o copo, o jeito que trata desconhecidos, o jeito que dirige, o jeito que beija, o jeito que desvia de assuntos constrangedores, o jeito que suspira, o jeito que se olha no espelho, o jeito que coça a barba, o jeito que arruma a alça do sutiã, o jeito que apoia o rosto na mão, o jeito que pisca os olhos, o jeito que retira os óculos, o jeito de abotoar a camisa, o jeito de gargalhar, o jeito de cruzar as pernas.
O currículo conta. As afinidades contam. Mas é o personalíssimo jeito de ser que irá provocar aquela paixão que não se explica. Ou o desencanto que também não.
Fonte: Zero Hora